E caem os chocolates

Em todos os setores, em todas as carreiras, em todos os níveis – do executor ao gerente ou diretor, todos os dias recebemos mais e mais demandas e atividades, muitas delas que até estão conectadas com o nosso trabalho, mas algumas que sequer estão dentro de nosso escopo.

Já observei situações onde o profissional, se tivesse apenas uma função, era tido como alguém cujo potencial estava sendo pouco aproveitado. Em outras palavras (e como realmente chegava a mim), não fazia nada.

Como assim? Eu imaginava que o trabalho deveria ser 01 cargo, 01 função, várias atividades (claro!) mas em apenas 01 escopo de trabalho.

No setor de desenvolvimento social (3º setor), este fenômeno se agrava ainda mais. Uma amiga de trabalho costumava dizer que “trabalhamos 12… 14 horas diariamente contra a exploração no trabalho”. Entendo que no nosso setor dedicamos horas adicionais de trabalho no que poderíamos compreender como parte de nossa doação à causa – ao trabalho social. E temos sim uma remuneração por isso – algo que não pode ser pago com dinheiro.

Em outros setores, estas horas adicionais se refletem na dedicação do profissional em se desenvolver cada vez mais, não apenas para melhor executar as atividades que lhe são confiadas, mas também para crescer profissionalmente e preparar-se para desafios futuros.

Mas o que realmente nos atropela são aquelas pequenas tarefas que surgem todos os dias… que mesmo conectadas com o escopo de nosso trabalho, não deveriam ser executadas por nós – no máximo deveríamos estar vinculados à tarefa como colaboradores – consultados em como deve ser executada… e não executá-la!

Não me refiro a auxiliar um colega, gerente ou subordinado em atividades que ele(a) está tendo dificuldade em realizar, ou em algo que é emergencial e importante para a organização, para o departamento. Este tipo de apoio, quando acontece pontualmente, é salutar e faz parte de uma compreensão do trabalho em equipe.

Mas… no mundo real… sempre damos um jeitinho de executar estas tarefas… na maioria das vezes, sozinhos. Algumas pessoas o fazem por medo de perder o emprego, outras porque entendem este acúmulo de atividades uma “oportunidade”, outras por ingenuidade.

Porém, na maioria dos casos, este esforço não é de fato reconhecido da forma correta. O vídeo abaixo, retirado do seriado “I Love Lucy”, dos anos 60, demonstra as possíveis consequências deste comportamento.
No vídeo “Lucy and the Chocolate Factory”, Lucy e sua amiga se desdobram para dar conta de embalar todos os chocolates que surgem na esteira, porque, do contrário, perderão o emprego. O resultado: sua supervisora acha que pode então acelerar (dar mais tarefas ainda) o processo.

“Ah.. vocês estão fazendo um excelente trabalho… acelera rapazes!!!”

Talvez, seja necessário que alguns chocolates caiam da esteira, para que fique clara a sobrecarga ou, simplesmente, que já estamos trabalhando dentro de nossa capacidade de produção.

Outro dia, uma outra imagem figurativa deste excesso de tarefas me veio à mente: imaginemos um barco enchendo de água. Todos se concentram (além de suas tarefas na condução e operação do barco) em drenar a água com baldes.

Não há uma preocupação em fechar os buracos permanentemente, ou mesmo de adquirir tecnologia para drenar mais rápido (o que ainda seria apenas uma ação paliativa). Isto não é feito, porque seria preciso deixar o nível da água subir um pouco mais, antes de começar a descer – o que importa são os resultados visíveis hoje.

Ou, porque seria necessário contratar mais pessoas – atenção gerentes de projetos!

O resultado: a operação e condução do barco ficam comprometidas, nos levando a chocar-se com rochedos ou icebergs, ou a reduzir a velocidade do barco, ou a deteriorar a manutenção do barco e qualidade de seus serviços, ou…

Mais grave: o capitão acredita não estarmos mais em perigo, porque o nível de água está estabilizado. Mas, até quando os tripulantes, além de suas tarefas normais, terão forças para continuar drenando a água com baldes?

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